sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O inventor do fanzine: um perfil de Edson Rontani

A utilização do fanzine como instrumento pedagógico, cada vez mais frequente, tem sido o desdobramento natural desse fantástico meio de comunicação. De publicação de fãs, em sua origem, o fanzine alcança muito mais que a função de passatempo e troca de informações, atinge sobretudo a liberdade de expressão, favorecendo o protagonismo de seus editores.
Embora os fanzines existam desde a década de 1920, nos Estados Unidos, sua disseminação pelo mundo se deu de modo gradual. No Brasil, sua origem assemelha-se a uma geração espontânea, já que não se tinha referências sobre essas publicações espalhadas pelo mundo.
Edson Rontani, em 1965 em Piracicaba, estado de São Paulo, foi o responsável pela proeza de dar origem aos nossos fanzines, ao lançar o boletim Ficção, voltado à divulgação e análise das histórias em quadrinhos. Isso não foi pouco, levando-se em conta a desinformação sobre esse tipo de publicação, o preconceito contra os quadrinhos e a precariedade dos processos de reprodução.
Foi a paixão pela arte que levou Edson a romper o isolamento em que vivia, por encontrar-se no interior do país e pela incompatibilidade etária, para a qual não caía bem continuar lendo quadrinhos após a puberdade. A atitude revolucionária de Edson, antecipando o famoso lema punk “do it yourself”, tomou nas mãos a tarefa de garantir sua autonomia e promover com recursos próprios sua necessidade de comunicação.
Isso é uma história sabida no meio, mas que deve ser difundida além do círculo restrito dos leitores e editores de fanzines. A importância de seu feito e de sua obra vai além dos grupos de aficionados e deve servir de inspiração para as novas gerações de fãs, de autoeditores, de irrequietos de todos os matizes e, principalmente de instrumento para dar voz a todos os que gostariam de tê-la.
Ao fazer 50 anos da criação do fanzine Ficção, Edson Rontani recebe o caloroso tributo de Gonçalo Júnior, nesse perfil que redimensiona o lado humano e criativo do autor. Quadrinista, pintor, publicitário, Edson foi muito mais que um editor de fanzine, mas com a criação dessas pequenas publicações artesanais ele mostrou que não precisa de muito para se inserir na história sem restringir-se a mero espectador.
Gonçalo, eu e tantos outros autores e editores temos nos fanzines um dos mais estruturantes elementos de nossa carreira artística e profissional, com autonomia, liberdade e criatividade. Por tudo isso, este livro é um pequeno gesto de gratidão e carinho ao pai de nossos fanzines, Edson Rontani.

Rontani, a referência

Li seu texto anunciando o livro de Gonçalo, no site da Marca de Fantasia. O sentimento que você tem a respeito do papel de Rontani, e o que isso refletiu em sua carreira, também é igual ao meu. Com um acréscimo, no meu caso. 
Rontani também foi em Piracicaba, até pouco depois de eu começar minha carreira, o único cartunista atuante na imprensa local, com frequência constante. Era a única referência local de desenhista de humor. Isso em 1991. 
Desde criança, e até a morte dele, em 1997, acompanhei os trabalhos dele na imprensa de Piracicaba. Rontani foi um desbravador quase solitário, como todo desbravador. Ele, inclusive, organizou três edições de um Salão de Caricaturas, antes da existência do Salão de Humor de Piracicaba. Depois dele, tive a sorte de começar a desenhar profissionalmente, junto a alguns outros que acharam esse caminho aberto. 
Comparando, foi como se eu tivesse começado a carreira em João Pessoa, olhando suas tiras da Maria nos suplementos e jornais paraibanos dos anos 70. E prosseguido na sua trilha.
Érico San Juan, por email, em 02/09/2015.

Fonte: Henrique Magalhães, Marca de Fantasia

Nenhum comentário: