terça-feira, 1 de abril de 2014

A light novel "No Game No Life" do brasileiro Yuu Kamiya ganhará um anime esse mês!


Tenho observado que essa notícia levantou o ânimo de muita gente aqui no Brasil, mas não acho que hajam tantos motivos assim para comemoração da parte dos aspirantes a mangaká que veem nesse fato uma porta que se abre rumo ao mercado japonês. Digo isso porque o cara nem é tão brasileiro assim. Na verdade Yuu vive no Japão desde os 7 anos de idade e nem sequer sabe falar o português direito. Não estou desmerecendo o cara, afinal eu daria meus mais sinceros parabéns a ele por ter conseguido tal feito, mas eu também daria meus parabéns pra qualquer outro japonês que consiga conquistar espaço no competitivo mercado nipônico. Entretanto, o fato de um brasileiro conseguir fazer sucesso e conquistar um anime no Japão em nada muda a situação dos demais brasileiros que tentam fazer o mesmo. Visto isso eu pergunto a você que ainda sonha em alcançar o seu lugar ao Sol nascente com seus dons quadrinhísticos...


vale a pena tentar?

Antes que alguém comece um discurso sobre determinação, esperança e superação, vou deixar claro que não pretendo desestimular ninguém na sua jornada rumo ao outro lado do mundo. Porém muitos que alimentam esse sonho nem se dão conta das dimensões que envolvem alcançá-lo. Por outro lado eu prefiro acreditar que o oásis que procuramos está mais perto de nós do que a 18.553km.
Antes de tudo veja essa matéria escrita por Sérgio Peixoto sobre as adversidades que você vai encontrar no caminho caso queira seguir essa laboriosa carreira internacional, e depois volte aqui pra gente continuar a conversa.



Certo... agora que você já sabe das dificuldades de se tornar e se manter como mangaká no Japão, vou dar alguns motivos pelos quais você poderia preferir se aventurar por aqui mesmo.
Pense bem, se você resolveu verter sangue pelos poros até conseguir uma oportunidade no mercado nipônico, agarre-se a ela, mas lembre-se que você estará fazendo pouca diferença na sociedade. Você será apenas um cara que foi trabalhar num país estrangeiro, e as editoras de lá não vão começar a se interessar pelos artistas daqui só porque você conseguiu. E você ainda corre o risco de ser cancelado e voltar de mãos abanando.
Mas aí você me diz que o mercado nacional não abre as portas para os artistas e que quadrinhista não tem valor no Brasil e nhem nhem nhem blá blá blá etc. Sim, isso é verdade. Mas você acha que o mercado japonês sempre foi essa maravilha toda? Não, meu amigo. A explosão do mangá no Japão se deu lá pelos anos 20, quando o país se recuperava das dores da guerra. O mangá veio como uma forma barata de aliviar a tensão das pessoas. Mas o fenômeno mangazístico não se deu por conta simplesmente do baixo custo e fácil acessibilidade do produto não. O mangá alcançou tamanhas proporções no país porque era feito PARA O PAÍS. O povo podia se identificar nas páginas daquelas histórias que, mesmo fictícias, refletiam a realidade de cada um e também a situação social coletiva. Naquele período, após o fim da guerra, o povo precisava de algo que espelhasse sua condição de derrota e desejo de superação. Assim proliferaram os mangás de esportes que exploravam ao máximo esse tema, além de uma diversidade de outros temas que retratavam não a realidade de outros países mais "legais", mas sim a realidade chata do povo que, nas páginas desenhadas, ganhavam uma abordagem interessante com a qual qualquer um podia se identificar.
Até hoje os mangás são conhecidos por sua imensa diversidade temática - até mangá sobre pescaria você encontra
Agora pense comigo, se os mangakás daquela época resolvessem fazer histórias ambientadas no ocidente, com personagens americanos ou europeus, será que o mangá teria tido o mesmo impacto e atingido as proporções que tem hoje? Dificilmente.
Voltemos à nossa realidade e vamos pensar sobre a mídia mais prolífera no nosso país.
 
...
 
Pensou? Isso mesmo, as novelas. Elas fazem sucesso porque retratam a sua vida, a minha, a do povo brasileiro. Ok, eu não gosto de novela, mas elas fazem sucesso com o público porque retratam a realidade do público. E mesmo que em alguns casos o diretor resolva tomar como base uma cultura diferente - como as novelas da Glória Peres que já utilizaram-se de diversas culturas orientais - o foco é sempre em personagens brasileiros e sempre se dá um jeito de brasileirizar o estrangeiro. Direcionando esse pensamento para o mercado de quadrinhos, pergunte-se, o que torna o nosso produto diferente? Se eu faço um mangá sobre uma colegial japonesa chamada Sakura, ou sobre um samurai renegado em busca de vingança, ou sobre um jovem ingênuo que luta artes marciais, não vai apresentar nada de diferente, então o leitor vai chegar na banca e ver um "Naruto", um "Rurouni", um "Guerreiras Mágicas". Diante de tantos títulos japoneses o meu Samurai Seiláoque vai ser só um mangá genérico feito no Brasil, nada mais que isso. Por mais que você diga que tem conhecimento da cultura japonesa e sua história é super original, as pessoas que se interessam pela cultura oriental vão sempre preferir material produzido pelo oriental.

Faça um mangá que se destaque no meio desses aí
O que quero dizer com isso? Que talvez a culpa de o quadrinho nacional ainda não terem atingido um status respeitável no nosso país não seja totalmente das editoras. Afinal, será que a Shonen Jump publica tantos mangás só porque ela é boazinha e dá oportunidade para os artistas por pura generosidade altruísta? Mas de jeito nenhum! Se os mangás não fossem lucrativos a editora publicaria revista de maquiagem, moda, fofoca, pornô ou qualquer outra coisa que lhe rendesse lucros.
O que tá faltando no Brasil não é oportunidade, mas qualidade e, principalmente autovalorização cultural. Se você está fazendo quadrinhos pensando em inserir a cultura japonesa só porque você gosta de mangá, então continue tentando a utópica carreira nipônica. Entretanto, talvez se você começar a ver que nossa cultura é tão rica quanto a deles e tentar abrir os olhos para a realidade social em que o povo brasileiro vive, talvez possamos demonstrar um diferencial no mercado. Talvez possamos capturar um público maior do que uns poucos apreciadores da cultura japonesa que querem dar uma chance para o autor brasileiro. Talvez possamos dar início a uma futura explosão do quadrinho nacional.

Agora uma notícia que me animou bastante esse fim de semana:  


Enfim  YuYu Hakusho de volta ao Brasil! 



Três vivas para a JBC!!!
Eu disse, três vivas para...
                            ah, esquece. 

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