quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ENTREVISTA: DENILSON REIS


Amigos, aproveitando a oportunidade, trago a vocês a compilação de três entrevistas concedidas pelo fanzineiro DENILSON REIS durante os últimos anos e que servem para traçar um pouco do perfil de sua trajetória no universo do fanzines.

DENILSON REIS: A TRAJETÓRIA

 
   Duas décadas produzindo fanzines! Sinceramente, em 1987, quando comecei, nunca imaginei que atravessaria do século XX para o XXI produzindo zines. Mas isto tornou-se uma realidade concreta. Conheça um pouco de minha trajetória e minhas publicações.
   Minha paixão pelos fanzines e pelas HQBs (Historias em Quadrinhos Brasileiras) é obra do falecido Joacy Jamys. Em meados da década de 80, assisti a reprise do filme Conan, O Bárbaro. Como gostei do filme, me indicaram os quadrinhos. Gostei também e virei colecionador. Mandei uma carta para a Editora Abril comentando sobre Sonja e dali, Jamys achou meu endereço. Iniciamos contatos falando de heróis Marvel, mas logo o assunto foi migrando para o quadrinho nacional e os fanzines. Em dezembro de 1987 botei pra circular o numero 1 de Tchê com a capa de Henry Jaepelt e HQ principal escrita por mim e desenhada pelo argentino Isaac Hunt.
   Tomei gosto de ver meu trabalho sendo elogiado Brasil afora e dei continuidade ao zine. Muitos nomes consagrados ou, que algum tempo depois seriam consagrados no universo dos fanzines e também no mercado de quadrinhos, passaram a colaborar com minha publicação, que chegou a ganhar o Troféu Risco de Honra ao Fanzine. Mergulhei em zines de outras temáticas, como a musica, por exemplo, e me envolvi em outros projetos: Fui fundador da Grafar e editor de um projeto arrojado para a época (década de 80), o Quadrante Sul. Este prozine editado em parceria com Alex Doeppe (Zine Antimatéria) e Gervásio Santana (Zine Estilo) é considerado ate hoje por buscar novas metas no período de crise da produção de fanzines no Brasil. Este prozine hoje é uma revista que voltamos a editar em 2009 e foi agraciada com o Prêmio DBArtes de melhor publicação independente. 

   Alem do fanzine Tchê, que teve seu numero 39 lançado em 2011, edito outros fanzines, quase todos no formato A5 com 20 paginas e impressão xerográfica. Blueseria, onde publico reportagens e comentários sobre Blues, tudo ilustrado por desenhistas de HQ; Arquivo, onde publico reportagens sobre HQs publicadas na grande imprensa gaúcha; O Muro, um informativo com a função de divulgar os meus lançamentos zineiros; A Tréplica, zine que traz artigos sobre política, economia, sociedade e cultura escritos por mim; Caverna dos Gibis, com resenhas sobre cinema baseado em quadrinhos; Essência Poética, zine de intercambio com poetas; alem destes, eventualmente lanço uma edição temática e também já editei outros tantos zines que foram cancelados ao longo dos anos.
   Em 2012, realizei o grande sonho de todo o fanzineiro, editar uma revista. Peryc, O Mercenário, é uma revista de historias em quadrinhos com o personagem Peryc, criação minha. A revista tem 32 paginas com capa colorida e miolo P&B, impressa em gráfica.
   Apesar da falta de tempo, pois sou professor de Historia na Rede Publica Estadual do RS e tenho que trabalhar 3 turnos para sustentar a família - Dona Rosi e minhas duas jóias raras: Henrique e Fernanda - não deixo de produzir meus fanzines, me envolver em uma serie de projetos de quadrinhos e, quando o tempo permite, tocar um bom Blues com a minha banda: Ferro Velho.

Fonte: QI 114


TRÊS PERGUNTAS PARA: DENILSON REIS

O BLUES É UM ESTILO MUSICAL POUCO CONVENCIONAL NO BRASIL. QUAL O PAPEL DO BLUESERIA PARA DIVULGAR O BLUES?

Denílson: Pelo fato do blues ser um estilo musical pouco convencional no Brasil, quase marginal, é que o fanzine Blueseria surgiu. O papel da publicação é fazer chegar aos amantes do Blues espalhados pelo Brasil o que acontece no cenário blueseiro de Porto Alegre e Rio Grande do Sul onde comento sobre os músicos gaúchos e os shows que acontecem de mestres do Blues vindos dos EUA. Além disso, o zine tem um diferencial das demais publicações de musica, incluindo o Blues, que é trazer sempre artigos e resenhas de shows com ilustrações de desenhistas de quadrinhos. As capas do Blueseria são verdadeiras obras de arte para quem curte ilustrações e musica. Alem disso, sempre que possível tem alguma HQ com a temática Blues.

VOCÊ ESTÁ PUBLICANDO DESDE 1987 A FRENTE DA TCHÊ PRODUÇÕES HQ, O QUE EXPLICA SE DEDICAR TANTO TEMPO A ALGO QUE NÃO LHE TRAZ RETORNO FINANCEIRO?

Denílson: Paixão e resistência cultural! Meus amigos fanzineiros que resolveram ganhar dinheiro largaram os fanzines a mais de uma década para se dedicar ao jornalismo, publicidade, literatura ou buscar o mercado norte-americano de quadrinhos desenhando super-heróis. Da minha parte, continuei fazendo fanzines por pura paixão e curtição no que faço, pois é sempre gratificante editar um zine e ver o pessoal comentando e elogiando minha persistência em produzir cultura sem o mínimo de retorno financeiro, alias, muito pelo contrário, a fanedição trás sempre prejuízo. Mas vejo isto como investimento na resistência por uma cultura livre do mercado. Mesmo que escreva um artigo sobre um super-herói ou uma estrela do rock, faço pela minha cabeça, minhas idéias, sem me preocupar com o mercado. Os fanzines são a pura expressão da imprensa alternativa e isso explica muito minha persistência em fanzinar a mais de duas décadas. Se você está lendo esta publicação, você é da resistência!

DE QUE FORMA AS PUBLICAÇÕES INDEPENDENTES IMPRESSAS PODEM CONVIVER HARMONICAMENTE COM O UNIVERSO VIRTUAL?

Denílson: Por muito tempo fui resistente ao universo virtual para as publicações de fanzines. Para um “dinossauro” como eu, tenho que pegar o fanzine nas mãos, folhear pagina por pagina e colocar na coleção, sempre a disposição para ser manuseado e levado de um lado para o outro. Continuo pensando desta forma, fazendo zines impressos, colecionando fanzines e levando a eventos e reuniões para o pessoal pode manusear. Mas, hoje vejo que uma coisa não excluía outra. Alguns novos leitores do fanzine Tchê me pediam as edições antigas a mais de 20 anos atrás e foi que percebi que seria interessante poder publicar estes zines na WEB e deixar o pessoal baixar no seu PC. Claro que isso fica longe de migrar do papel para o virtual, uma coisa que não deve excluir a outra. Quem como eu curte o papel, os fanzines continuam impressos e, para aqueles que convivem bem – talvez a nova geração? – o universo virtual está aí. Para finalizar, o virtual deve estar a serviço dos editores de publicações impressas, não devemos ver o virtual como concorrente, pois os públicos são diferentes. E mais um detalhe, a partir do universo virtual, um novo publico leitor pode descobrir as publicações independentes impressas.



Fonte: 2º Anuário de Fanzines e Publicações
Independentes da UGRA



ENTREVISTA: DENILSON REIS

QUAL O OBJETIVO DO SEU FANZINE?
Denílson: Divulgar a arte alternativa e independente produzida no Brasil

HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ FAZ FANZINES?
Denílson: 25 anos. Meu primeiro fanzine foi lançado em Dezembro de 1987.

QUAIS SÃO OS FANZINES QUE VOCÊ PRODUZ E QUAL O TEMPO DE EXISTÊNCIA DELES?
Denílson: Fanzine Tchê (quadrinhos) desde 1987. Além do Tchê, edito uma serie de fanzines sobre assuntos como: Cinema (TelaHQ), musica (Blueseria), quadrinhos (Arquivo), poesia (Essência poética) e ideologia ( A Tréplica), entre outros, editados paralelamente ao Tchê em tempos diferentes, uns mais antigos, outros mais recentes. Também produzo duas revistas impressas em gráfica: Quadrante Sul e Peryc, O Mercenário.

QUAIS SÃO AS TECNICAS QUE VOCÊ UTILIZA NA CRIAÇÃO DO FANZINE?
Denílson: Faço fanzines como se estivesse produzindo uma revista, sem muitas técnicas diferenciadas e diagramações muito revolucionárias.

QUAIS SÃO OS TEMAS ABORDADOS?
Denílson: Procuro abordar cada tema (quadrinhos, musica, cinema, poesia e ideologia) em fanzines próprios, ou seja, sem misturar uma arte com a outra. Apenas tento ilustrar todos meus zines com desenhos de quadrinhistas colaboradores do Fanzine Tchê.

COMO VOCÊ REPRODUZ E DIVULGA SEUS FANZINES?
Denílson: Meus zines são produzidos de forma artesanal. Claro que nos últimos anos, os programas de computador têm ajudado bastante. A divulgação é feita diretamente com meus contatos que tenho mantido ao longo de 25 anos. A internet também tem ajudado muito, pois divulgo minhas publicações em blogs e sites especializados. Também levo minhas publicações em diversas feiras e eventos de cultura pop.

QUAL A TIRAGEM QUE VOCÊ COSTUMA IMPRIMIR?
Denílson: 50 a 100 exemplares dos fanzines em papel xerox. Quanto às revistas, como são produzidas em gráfica, tiragem fica em torno de 500 exemplares.

QUAIS OS MEIOS DE DISTRIBUIÇÃO DE FANZINE?
Denílson: O principal é via correio, ou seja, contato direto com o leitor. Também distribuo via sites de vendas e livrarias especializadas.

QUAIS FORAM AS PRINCIPAIS MUDANÇAS QUE VOCÊ SENTIU AO LONGO DO TEMPO ENTRE AS TECNICAS DE PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E REPRODUÇÃO DE FANZINES?
Denílson: Como tudo na vida, os fanzines também sofreram mudanças tecnológicas. No inicio era tudo feito manualmente com cola, tesoura, textos datilografados. Hoje se produz um fanzine usando o Corel ou outro programa gráfico.  A distribuição continua praticamente a mesma, ou seja, via correios. Mas, hoje temos algumas livrarias especializadas em quadrinhos e cultura pop que colocam nossos trabalhos para venda, alem da internet.

QUAIS SÃO OS CUSTOS E A PERIODICIDADE DO SEU FANZINE?
Denílson: Como fanzine é um hobby, não tem como mensurar os custos. Cada grana que vai sobrando no orçamento da família eu uso para imprimir um novo zine. A periodicidade varia muito. Como edito uns 10 zines diferentes por ano, cada zine, acaba saindo uma vez por ano.

VOCÊ VENDE SEUS FANZINES? COMO É FEITA ESSA VENDA? ONDE VOCÊ OS EXPÕE?
Denílson: Como já escrevi, vendo diretamente ao leitor via correspondência ou através de sites de vendas de publicações independentes. Exponho em livrarias especializadas em quadrinhos e em eventos de cultura pop, como as convenções de quadrinhos.

OS FANZINES RECEBEM ALGUM TIPO DE PATROCÍNIO?
Denílson: Normalmente não, principalmente os produzidos em papel xerox. Mas, quando tem edição mais caprichada, impressa em gráfica, é possível buscar um patrocínio, embora isso seja difícil. Outra saída é tentar algum projeto bancado por leis de incentivo a cultura.

VOCÊ PRODUZ SEU FANZINE INDIVIDUALMENTE OU EM COOPERAÇÃO COM OUTRAS PESSOAS?
Denílson: Como editor, faço fanzine individualmente, ou seja, é o meu fanzine. Mas tem uma gama de pessoas que colabora para que minhas publicações sejam colocadas no cenário. São escritores, desenhistas, poetas, jornalistas e diagramadores que ajudam a fazer meus zines. Tudo na camaradagem, pois fanzine não visa o lucro. Até pelo contrario, o editor – no caso eu – gasta para colocar um fanzine para circular. Como o pessoal que colabora sabe disso, fazem seus trabalhos sem curtos, só pelo prazer de ver a publicação circulando. Mas tenho um projeto – Quadrante Sul – que é uma cooperativa de quadrinhos. Nos reunimos, editamos uma revista e dividimos as tarefas e os custos.

 
Fonte: TCC de Vanessa Santana (PE)

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Um comentário:

Denilson Reis disse...

Suád! Valeu a publicação deste material onde falo de meus projetos nos fanzines e nos quadrinhos. Obrigado!