segunda-feira, 9 de julho de 2012

O FIM DOS FANZINES


(publicado no zine QI, nº 115, de Edgard Guimarães, Maio/Junho 2012).

Antes de mais nada, tenho que agradecer  as palavras gentis de Henrique Magalhães em relação ao “QI” e ao meu trabalho como editor e quadrinhista. Mas meu objetivo aqui não é a autopromoção. Somente.
Henrique tocou num ponto muito importante que merece discussão: o decréscimo das publicações de fanzines.
O assunto será tratado sob vários aspectos, mas antes é preciso fazer algumas observações. Eu normalmente uso o temo “fanzine” para designar qualquer tipo de publicação amadora. Mas neste texto acompanharei a conceituação usada por Henrique Magalhães, também usada por Worney A. Souza na definição das categorias do Prêmio Ângelo Agostini. Fanzine, então, é somente a publicação amadora que traz informações sobre determinado assunto, no presente caso, sobre quadrinhos. A publicação amadora traz Histórias em Quadrinhos produzidas pelos próprios editores e colaboradores fica denominada Revista Independente.
A questão levantada por Henrique no segundo parágrafo tem de fato as duas respostas que ele apresenta.
A reformulação do QI a partir do nº 101 teve como causa a adequação à realidade. E a realidade é que o número de leitores interessados pela publicação estava decrescendo. O QI chegou a ter tiragem de mais de 700 exemplares, quando era distribuído gratuitamente. À medida que parte de seus custos começou a ser repassada para o leitor, estes foram diminuindo. Atualmente, com o sistema de assinatura, onde o leitor paga o custo da impressão e envio, é tiragem é pouco maior do que 100 exemplares. A conseqüência imediata disso é que parte dos editores independentes não acha mais vantajoso divulgar suas publicações no QI. Eu continuo adquirindo todas as edições independentes de que tenho noticia, mas divulgo no QI apenas aquelas que obtenho através do correio. As publicações que consigo adquirir de outras formas, comprando diretamente em eventos ou em livrarias virtuais, essas eu não divulgo, pois não estou certo de que o editor esteja disposto a atender pedidos pelo correio. Assim. Não tem sentido informar o leitor sobre um título que ele não possa adquirir via postal.
Outra conseqüência negativa da reformulação é que o espaço dedicado a cada título diminuiu. Deixei de incluir na divulgação o texto informando o conteúdo de cada edição. Era um texto pequeno, mas útil. No entanto, mesmo pequeno, dava bastante trabalho produzi-los. Essa simplificação resultou, de fato, na diminuição do espaço total dedicado às edições independentes no QI.
No entanto, nunca houve, de minha parte, intenção de diminuir a característica de divulgação do QI, característica esta que motivou a criação do fanzine em 1992, o encolhimento da divulgação no QI decorreu de outras causas, já mencionadas, alheias à minha vontade. E importante: o aumento de textos analíticos e HQs no QI não foi responsável pela diminuição do espaço de divulgação.
É preciso salientar que, apesar de tudo, continuo divulgando tudo que recebo, por intercâmbio, por aquisição pelo correio, e considero que este espaço no QI ainda seja importante. E o número de edições divulgadas continua sendo expressivo, embora menor do que em outras épocas. Para qualificar a questão, vou considerar os 6 números do QI publicados em 2011 (QI 107 a 112). Durante este ano foram divulgadas 283 edições, sendo 180 de quadrinhos e 103 de outros assuntos. Não é um numero desprezível, embora significativamente menor do que o divulgado em outros tempos, quando uma edição do QI chegava a divulgar quase uma centena de edições de quadrinhos.

 
Como analisado, parte dessa diminuição se deve à queda de tiragem do QI. Mas é certo que parte deve ser por causa da diminuição do próprio numero de títulos publicados. Este aspecto merece detalhamento.
A impressão que se tem é que há atualmente um número grande de edições sendo produzidas. E de fato isso ocorre. Um bom indicativo foi o número de edições independentes lançadas na última edição do Festival Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte. Uma característica dessas edições é que são produções mais elaboradas, com qualidade gráfica melhor, o que permite que aspirem os sistemas de distribuição mais nobres, como a venda através de livrarias, reais ou virtuais. Essas edições, portanto, não cabem na divulgação que o QI faz. Então num estagio em que o editor já está abrindo mão de fazer ele mesmo a distribuição, e esta agora cabe aos distribuidores especializados. Portanto, há uma parcela da produção independente que não precisa da divulgação feita em fanzines, em particular no QI. Então, parte da diminuição do espaço de divulgação do QI está aí: edições independentes que já saíram do escopo de divulgação dos fanzines.
Até o momento, não se considerou na analise a influência da internet. Todas essas edições mencionadas são reais, publicações impressas. Embora haja muita gente que já tenha optado por fazer publicações virtuais, para visualização direta no site ou na forma de arquivos para download, isso não fez diminuir a vontade de muitos de produzirem revistas e livros impressos. Tanto que esta produção é bastante grande atualmente.
Em relação à divulgação dessas publicações impressas, é bastante provável que os editores busquem divulgá-las na internet prioritariamente, devido ao baixo custo. É muito barato enviar releases para sites e blogs de quadrinhos. Embora não se saiba ainda a eficácia disso. Os freqüentadores de sites e blogs efetivamente compram as edições divulgadas? De qualquer forma, o fato dos editores darem preferência à divulgação virtual não tem maior influência na divulgação feita no QI, são duas coisas independentes. As edições divulgadas no QI são as edições que adquiro ou faço intercâmbio, portanto, serão divulgadas mesmo que não tenha sido este o propósito do editor.
Agora vem a questão principal: dessas edições independentes de quadrinhos produzidas atualmente em grande escala, quais são revistas independentes e quais são fanzines, seguindo a diferenciação feita por Henrique e Worney?
Aqui, sim, há uma mudança bastante brusca, que eu não havia me dado, cuja ficha só foi cair quando fui preencher a cédula de votação do Ângelo Agostini no começo do ano. Ao consultar os números do QI de 2011, constatei que o número de fanzines publicados é assustadoramente baixo. Das 180 edições de quadrinhos divulgadas no QI em 2011, 167 são revistas independentes e apenas 13 são fanzines. Praticamente os fanzines se resumem aos números de “Mocinhos & Bandidos” publicados com regularidade, e aos títulos de José Magnago encabeçados por “O Castelo de Recordações”. No começo do ano saiu ainda um numero do “Portal Zine” e no final do ano novo numero de “O Quero-Quero”. E de modo geral, estes fanzines não são exclusivos sobre quadrinhos. 
Então, sim, os fanzines estão no fim! E a explicação é que montar um blog parece muito mais prático e barato do que fazer uma publicação impressa sobre quadrinhos. Para a finalidade de informar o leitor sobre lançamentos, parece claro que os blogs e sites são mais eficientes. Para os textos mais analíticos, já não tenho certeza. Minha impressão, e eu já havia falado isso, no começo de 2011, em meu depoimento para o Márcio Sno incluído no documentário “Fanzineiros do Século Passado”, é que os fanzines que sobreviverem serão os que aprofundarem questões relevantes sobre quadrinhos, os que se tornarem “quase livros” como o “Top! Top!” de Henrique Magalhães. E ainda os que se mantêm como dossiês sobre algum assunto como O Castelo das Recordações e o Quero-Quero. E certamente as opções para voto na categoria “Fanzine” no Ângelo Agostini continuarão restritas.

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