terça-feira, 19 de junho de 2012

OS QUADRINHOS NO MARANHÃO


   Diante do panorama americano atual de produção de HQs com imagens digitalizadas e roteiros consistentes, torna-se necessária uma busca no que se refere a essa forma de arte visual no Maranhão. Com vistas a estabelecer analogias e melhor compreender sua inserção enquanto forma de arte contemporânea, buscamos explorar os quadrinhos no Maranhão e as influências dos quadrinhos de super-heróis americanos na produção local.
   A produção de histórias em quadrinhos no Maranhão mostra-se desprovida de apoio das instituições governamentais ou privadas e limita-se ao lançamento de revistas independentes, denominadas “fanzines”, onde os próprios autores se dispõem ao trabalho de confecção das histórias, diagramação e distribuição e terminam por arcar com as despesas, sem objetivo de lucro.
   Nesse contexto, a produção de histórias com super-heróis uniformizados existe, apesar de pouco explorada, limitando-se a copiar os paradigmas de outros heróis famosos americanos. Paradigmas como identidades secretas e vida urbana, cidades que lembram Nova York, além de super-poderes já existentes como super-força, poder de vôo, ou capacidades mutantes. Embora essa produção mostre-se pequena, a maioria dos autores que trabalham com histórias em quadrinhos independentes em São Luís, procura novas formas de expressão por meio dos quadrinhos e surgem histórias de outros gêneros, tornando-se uma constante as aventuras voltadas para o público adulto.
   Assim, em 1989, surgiu o SingularPlural, o primeiro grupo organizado de quadrinhistas do Maranhão, que objetivava a formação de uma associação de profissionais da área em São Luís e o lançamento de revistas de produção independente. Inicialmente chamava-se “Grupo de Risco” e teve como membros os artistas o saudoso Joacy Jamys, Ronilson Freire e Iramir Araújo lançando, em 1991, a revista SingularPlural, que trazia histórias curtas produzidas pelos próprios autores, além da divulgação de outras revistas independentes, os chamados “fanzines” e informações sobre eventos do gênero.
   O grupo, após várias mudanças de formação, passou a se chamar SingularPlural e contar com a participação de Rômulo Freire, Alberto Nicácio, Ângelo Ribeiro e Jonilson Bruzaca, mantendo atividades relacionadas à produção de quadrinhos em São Luís tais como cursos de histórias em quadrinhos, na oficina Comix, o I Concurso de Histórias em Quadrinhos do SESC-MA, em 1997, e o I Fórum Maranhense de Quadrinhos, no shopping São Luís, em 2002. Este último contou com a participação de artistas como Érico Junqueira, professor da UFMA, único cartunista maranhense a ter seus trabalhos expostos no festival Yomiuri Shimbum, no Japão; Jad Jadson, artista brasileiro que trabalha para grandes editoras americanas de quadrinhos como Marvel, DC e Image, além de artistas locais e exposição de originais.
   A imagem ao lado mostra a capa da revista Fusão nº1 lançada em 1997 e demonstra uma pretensão por parte dos autores de realizar um trabalho de quadrinhos independente e voltado para o público adulto, visto que os personagens Caolho, Necromantus e Dronn, o mercenário, resgatam as temáticas do suspense, policial e ficção científica. Além dos personagens, a revista traz também uma entrevista com o quadrinhista Joe Bennett, brasileiro que trabalha com editoras americanas tais como Marvel, DC e Image.

 
   Um profissional importante para o desenvolvimento dos quadrinhos no Maranhão foi Joacy Jamys, que faleceu em janeiro de 2007, devido à incidência de um ataque vascular cerebral. É relevante ressaltar que, ainda que fraco e ausente de apoio das instituições governamentais e das grandes empresas, o segmento da produção de HQs maranhenses não deixou de produzir suas obras, de modo que ainda existem artistas trabalhando suas histórias e lançando-as, ainda que na informalidade, em cópias xérox e divulgação “boca-a-boca”. Nesse sentido, um dos grandes incentivadores desse processo foi Jamys, que tem sua importância reconhecida por fãs, sites como o cranik e revistas especializadas como a Wizard.
Joacy Jamys teve seus trabalhos publicados em países da Europa como Inglaterra, Portugal, Espanha, Polônia e França, além de países da América latina como Peru, Argentina e Brasil sendo reconhecido nacionalmente ao receber indicação para o prêmio HQ Mix 2006, considerado o Oscar dos quadrinhos nacionais. Recebeu também menção honrosa no Concurso Nacional de HQs de Carlos Barbosa/RS, em 1994 e na 2ª Mostra Maranhense de Humor; foi selecionado em exposições, mostras, concursos e salões de desenho no Brasil, Angola e Espanha, além de integrar a Association Latino-americana de Historietas, sediada em Cuba e a Associação de Quadrinhistas e cartunistas do Estado de São Paulo - AQC-SP.
   Nascido em 1971, na capital do Rio de Janeiro, Jamys passou a maior parte de sua vida no Maranhão. Editou seus fanzines, produziu ilustrações e quadrinhos para publicações desde os catorze anos, tendo como destaque em sua carreira a revista independente “Legenda”, que editou desde o ano de 1986. Buscou sempre conquistar o espaço para as publicações nacionais, que sempre perderam para as estrangeiras devido à falta de investimentos das editoras nacionais em novos talentos, seja pelos altos custos para se manter uma revista ou pela falta de reconhecimento da importância dessa forma de arte. Jamys sempre incentivou a produção local e em entrevista ao site cranik, respondeu à questão “Qual é a sua visão dos desenhistas atuais no quesito criatividade?”. Para ele a criatividade dos artistas brasileiros pode ser percebida através da atuação de diversos grupos. Jamys afirma que:

“Meio a meio. Temos ótimos quadrinhistas e argumentistas. O pessoal evoluiu muito, falando sério. Invejo muitos jovens que estão arrebentando. Aqui em São Luís mesmo, tem um pessoal que detona. Até o pessoal que está produzindo super-heróis e mangás, estão bons. Infelizmente, muitos se pasteurizaram, ficando bonitinhos demais e estão atolados em temas que não somam com nada, transformando ARTE em apenas PRODUTO. O Brasil está cheio de artistas-produtos, preocupados com elogios e status em grupos fechados. Mas, tem outros que mantém trabalhos coerentes e interessantes. Veja o pessoal da Graffiti (MG), Front (SP), Ragú (PE), Fúria (MA) e outros. Tem gente boa por aí, sim. Veja os sites. Tem coisas bem trabalhadas e produzidas.”

   Joacy, no momento da citação em que diz: “até o pessoal que está produzindo super-heróis e mangás, estão bons” refere-se à sua posição, não de ser contra os quadrinhos de super-heróis - visto que o mesmo possuiu uma vasta coleção de quadrinhos dessa natureza - mas de apoio à inovação, ao trabalho de autor e à produção nacional, sempre sua meta, ao invés da simples imitação de modelos modistas. Dessa forma, a proposta do Grupo de Risco e, posteriormente, Singularplural, era de renovar os quadrinhos e incentivar a produção local, contando com artistas como Iramir Araújo, Ronilson Freire e o próprio Joacy, para alcançar essa meta. Com uma vasta produção, o grupo ilustrou tiras para jornais locais, lançou revistas independentes como a “Singularplural”, a “Fusão” e a “Fúria”, ministrou oficinas, concursos e seminários sobre o tema das histórias em quadrinhos.   
   Assim, no dia 16 de março de 2006, ocorreu o lançamento da revista “Corpo de Delito”, na Galeria de Arte do SESC em São Luís. O personagem principal, o policial Augusto dos Anjos, conhecido pelo codinome “Caolho”, foi criado por Iramir Araújo e teve suas histórias publicadas pela Grafipar e também na revista Fusão, do próprio grupo. Essas aventuras são ambientadas na cidade de São Luís e reforçam a proposta dos artistas de produzir HQs com temáticas próprias e sair da habitual condição de unicamente absorver a cultura de outros países.
   Além disso, outro grupo que se formou na segunda metade dos anos noventa foi o Fator RHQ, formado por Tony Machado, Ricardo Pontes, Samira, Kelly, Bruno Azevedo, Djalma Lúcio, Zilson Costa (Zeck), Gabriel e Ademar. Mais tarde outros artistas como Gilson César, Diogo Henrique, Joacy Jamys, Érico Junqueira e Carlos Baima, também colaboraram na produção da revista “Área de Mancha”, editada pelo grupo com o nº. zero sendo lançado em 1998.
   Em 1999, o nº. 1 da revista (ilustração abaixo) foi lançado e uma cópia enviada para o festival de Amadora, na cidade de mesmo nome, em Portugal conseguindo o prêmio de “melhor revista estrangeira em língua portuguesa”.

 
   A revista trazia o personagem fixo Capitão Brasil, uma sátira ao Capitão América. Seu nome era José Manoel da Silva, popularmente conhecido como “Zé Mané”, um cidadão comum, que vive sem dinheiro e passa pelas maiores dificuldades para se alimentar. Por algum acidente, acaba ganhando super-poderes.
   Além deste, a edição também mostrava histórias curtas, tiras e ilustrações e foi lançada de maneira independente, com capa colorida e páginas internas em preto-e-branco, copiadas em xerox, financiadas pelos membros do grupo.
   O grupo Fator RHQ teve outra formação que ocorreu após a saída de alguns membros. Da formação original permaneceram somente Tony Machado e Zeck e adentraram três novos participantes: Riccelli Sullivan (Suád), Olavo Coelho e Rayanderson Oliveira, que lançaram em conjunto em 2007, o zine Comicstation, que teve 8 edições publicadas que também eram financiadas pelos próprios membros do grupo. Com o tempo o zine ganhou status de revista e a publicação de maior circulação em toda São Luís. A revista apresentava Hqs autorais de super-heróis, seus conflitos e seu dia-a-dia. Dentre os quais podemos destacar o enigmático Visagem de Tony Machado. Um vigilante uniformizado que combate o crime nas ruas de São Luís envolto por muito suspense e mistério.
   Em 2010, surge o grupo Novo Sistema formado por Well Jun e Genilson Santos e que mais tarde viria a contar com o auxilio de Suád. O grupo ganhou força e através das redes sociais hoje vem divulgado seu trabalho de forma eficiente apresentado uma gama de materiais não só produzidos aqui dentro do Maranhão mas como também fora do estado.
   Pesquisando estes grupos, pode-se perceber a falta das estruturas de apoio e uma discrepância com relação ao mercado americano. Enquanto os artistas que trabalham em editoras americanas ou de outros países são assistidos por sindicatos e têm os quadrinhos como profissão, os artistas maranhenses trabalham por conta própria. Alguns, como Joacy Jamys, até adquirem reconhecimento, mas limitam-se a ter os quadrinhos como forma de divulgar sua arte, mas não garantir o próprio sustento. 
   Assim, nota-se que, não só no Maranhão, mas no Brasil, há inexistência de um mercado consistente e que garanta a produção local, obrigando aqueles que desejam publicar suas histórias a tirarem do próprio bolso, o que diminui em muito a qualidade gráfica das edições.

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